O primeiro data center da história pesava 27 toneladas
Em fevereiro de 1946, o ENIAC foi apresentado ao público na Universidade da Pensilvânia como o primeiro computador eletrônico digital de uso geral do mundo. Ele pesava mais de 27 toneladas, ocupava uma sala de 28 m² e consumia 150 kW — energia suficiente para abastecer dezenas de casas. Antes de existir a palavra “data center”, já existia a sala que fazia o papel de um.
Uma sala de 30 metros cheia de válvulas
O ENIAC ocupava uma área em formato de U, com painéis de quase 3 metros de altura ao longo de 30 metros de comprimento. Ao longo de sua operação, chegou a usar cerca de 18 mil válvulas a vácuo, cada uma gerando calor e com vida útil curta. Trocar válvulas queimadas era rotina diária — uma equipe ficava de prontidão só para isso, numa versão bem mais manual do que hoje é a vigilância de um NOC.
A sala também precisava de ventilação forçada para escoar o calor de 150 kW dissipados continuamente. Isso, somado à necessidade de energia estabilizada para não corromper os cálculos, criou ali os primeiros rascunhos do que uma sala de servidores exige até hoje: redundância elétrica, refrigeração dedicada e gente de prontidão para o reparo.
O mito das luzes de Filadélfia
Uma lenda urbana repetida por décadas afirma que, ao ligar o ENIAC, as luzes de Filadélfia piscavam ou diminuíam de intensidade — como se a cidade inteira sentisse o tranco elétrico da máquina. É uma boa história, mas não é verdadeira. Em entrevista à Computerworld, J. Presper Eckert, um dos criadores do ENIAC, foi direto: chamou a história de “ficção total, inventada por algum jornalista”. Segundo ele, a equipe retirava energia da rede e usava reguladores de tensão justamente para entregar os 150 kW de forma estabilizada — o oposto de um consumo instável que afetaria a iluminação da cidade.
A Wikipédia, que reúne boa parte da documentação histórica sobre a máquina, também não registra esse efeito sobre a rede elétrica da cidade. Ou seja: a fonte mais próxima do fato — um dos próprios engenheiros que projetou o sistema de energia — contradiz a versão popular, e nenhuma fonte documental sustenta o contrário.
Por que isso importa hoje
Oitenta anos depois, a lógica por trás daquela sala continua sendo a mesma que rege qualquer data center moderno: energia sempre disponível, calor que precisa sair de algum jeito, e peças que vão falhar e precisam de reposição planejada. A diferença é de escala — um data center de IA atual pode consumir dezenas de megawatts, centenas de vezes o que o ENIAC pedia da rede. O problema que a Filadélfia de 1946 não teve é, ironicamente, o que preocupa concessionárias de energia ao redor de data centers de IA agora.
Conclusão
O ENIAC não apagou as luzes de ninguém, mas inaugurou um tipo de infraestrutura que só cresceu desde então. Da sala de 28 m² com 18 mil válvulas aos campi de milhares de servidores de hoje, o desafio de origem continua o mesmo: manter energia e refrigeração à altura do que a eletrônica exige.