A origem do termo firewall: do incêndio ao pacote bloqueado
O nome do dispositivo que hoje segmenta VLANs e barra tráfego malicioso não nasceu na informática. “Firewall” é um termo emprestado da construção civil e da engenharia automotiva, e só chegou às redes de computadores no fim dos anos 1980 — décadas depois de já proteger prédios e motores de incêndio.
Da parede corta-fogo ao compartimento do motor
Na construção, firewall é a parede de alvenaria ou material resistente ao fogo erguida entre edifícios geminados ou dentro de um mesmo prédio, projetada para conter as chamas de um lado e dar tempo de fuga e resposta antes que o incêndio se espalhe para o resto da estrutura. O mesmo princípio migrou para veículos e aeronaves: a chapa metálica que separa o compartimento do motor da cabine de passageiros recebeu o mesmo nome, porque cumpre a mesma função — isolar a fonte do risco do restante do sistema.
É esse conceito de barreira que contém, sem necessariamente eliminar, o problema que os engenheiros de rede pegaram emprestado quando começaram a isolar sistemas internos da internet aberta.
Um roteirista usou a palavra antes dos engenheiros
O primeiro uso registrado do termo em um contexto de computação não veio de um paper técnico, mas do cinema. Em WarGames (1983), de John Badham, um programador menciona “firewall” em uma cena — o que pode ter plantado a semente do nome que a indústria adotaria alguns anos depois, segundo o verbete da Wikipédia sobre o tema.
DEC e a Bell Labs escrevem o primeiro capítulo técnico
O primeiro artigo técnico sobre a tecnologia saiu em 1987, assinado por engenheiros da Digital Equipment Corporation (DEC), descrevendo os chamados packet filter firewalls — a primeira geração da tecnologia, que filtrava pacotes isolados sem memória de conexão. Na sequência, Bill Cheswick e Steve Bellovin, da AT&T Bell Labs, aprofundaram a pesquisa e, em 1994, publicaram o livro Firewalls and Internet Security: Repelling the Wily Hacker, referência até hoje.
Entre 1989 e 1990, outro trio da Bell Labs — Dave Presotto, Janardan Sharma e Kshitij Nigam — desenvolveu a segunda geração da tecnologia, os circuit-level gateways, que passaram a acompanhar o estado de uma conexão inteira, não só pacotes soltos. O salto seguinte veio em 1993, com o Firewall Toolkit (FWTK), de Marcus Ranum, Wei Xu e Peter Churchyard, que serviu de base para o Gauntlet, um dos primeiros produtos comerciais da categoria.
Por que o nome ainda faz sentido
Nenhum firewall — de alvenaria ou de regra de ACL — impede o incêndio ou o ataque de existir. Ele contém, segmenta e ganha tempo, o que descreve bem o que uma política em um FortiGate ou um pfSense faz hoje: separar zonas de confiança, limitar o alcance de uma falha e impedir que um problema em um segmento vire incêndio na rede inteira.