768 chaves vazadas da AWS ainda dão controle total
A Truffle Security revalidou, em 10 de agosto de 2026, um lote de 10.616 chaves de acesso da AWS encontradas expostas publicamente entre agosto de 2022 e agosto de 2026 — espalhadas por histórico de Git, datasets do Hugging Face, imagens Docker, registries de pacotes e logs de CI. O resultado: 88% delas ainda autenticam normalmente, e 768 pertencem a empresas com controle administrativo total sobre a conta na nuvem.
Escala do problema
O levantamento partiu de uma base bem maior: 431.875 achados públicos, deduplicados em 64.024 pares únicos de chaves AWS, ligados a 50.654 contas. Dessas, 10.625 (16,6%) são chaves root — a identidade máxima da conta, sem possibilidade de restrição de permissões.
Do subconjunto de 9.308 chaves ativas que puderam ser classificadas por vínculo, 817 estão associadas a empresas (nome real na conta ou domínio corporativo). Cruzando isso com o nível de privilégio, a Truffle Security chegou ao número central: 526 são chaves root e outras 242 são usuários IAM com a política AdministratorAccess. Somadas, 768 chaves dão controle irrestrito da conta AWS de uma empresa.
No topo da gravidade estão 130 chaves root ativas vinculadas a contas de gerenciamento de Organizations — a conta que comanda todas as demais dentro da organização. Comprometer uma dessas expõe todas as contas-membro de uma vez.
Hugging Face é a maior fonte isolada
Entre as origens mapeadas, o Hugging Face concentra 8.482 chaves únicas ainda ativas, espalhadas por 3.394 datasets públicos — o maior volume de qualquer fonte individual. Nesse grupo, 17,9% são chaves root, a proporção mais alta entre todas as origens analisadas. A explicação: datasets costumam ser cópias de repositórios de código reempacotadas para treinamento, e uma chave commitada uma única vez acaba tokenizada em corpora baixados por milhares de projetos.
Chaves de cinco anos, nunca rotacionadas
Para as 2.903 chaves em que foi possível consultar a data de criação, a idade mediana da chave ainda ativa é de 1.831 dias — cerca de cinco anos. A mais antiga tem 17,4 anos, quase a idade do próprio IAM. Apenas 13,7% (398 de 2.903) tinham qualquer chave mais nova associada ao mesmo usuário, sinal de rotação. As demais 86% nunca foram trocadas, substituídas ou desativadas.
A própria AWS já tinha detectado parte disso
Do total de 7.590 chaves de usuário IAM ativas analisadas, 929 (12%) já carregam a política AWSCompromisedKeyQuarantine, aplicada automaticamente pela AWS quando detecta exposição pública. Entre elas, 112 usam a versão antiga da política, descontinuada em 2023 — ou seja, foram sinalizadas há pelo menos três anos, os donos foram notificados, e as chaves continuam autenticando.
Questionada pelo BleepingComputer, a Amazon confirmou que notifica clientes sempre que toma conhecimento de chaves expostas e aplica políticas de quarentena para conter o risco sem interromper o ambiente do cliente, reforçando que a segurança da nuvem segue o modelo de responsabilidade compartilhada.
Outro dado exposto pela pesquisa: apenas 9,5% das 2.754 contas com Cost Explorer legível tinham algum alerta de orçamento configurado, com limite mediano de US$ 8. As contas legíveis somaram US$ 420.631 em gastos só em julho de 2026, com 50 delas ultrapassando US$ 1 mil e 9 passando de US$ 10 mil no mês — sem qualquer barreira automática de contenção.
Como reduzir a exposição
- Elimine chaves de acesso root. Não há justificativa para uma chave root existir em 2026 — revise todas as contas, inclusive a pessoal esquecida desde 2019.
- Liste as chaves IAM por idade com
aws iam list-access-keyse aplique uma política de idade máxima para forçar rotação periódica. - Configure um alerta de orçamento, mesmo que baixo. Um limite de poucos dólares já sinaliza cryptomining ou uso indevido antes que a fatura explique.
- Trate qualquer credencial commitada como comprometida. Apagar o arquivo depois não ajuda: 43% das chaves da amostra apareceram mais de uma vez em repositórios, datasets e imagens diferentes.
- Monitore a política
AWSCompromisedKeyQuarantinena conta. Se ela aparecer em um usuário, é a própria AWS avisando que aquela chave já é pública.
Perguntas frequentes
O que torna uma chave root da AWS mais perigosa que uma chave IAM comum?
A chave root representa a identidade da conta inteira e não pode ser restringida por políticas de permissão. Quem a possui pode encerrar a conta, alterar cobrança e acessar qualquer recurso, sem as barreiras que se aplicam a um usuário IAM.
Como uma chave da AWS vaza sem que a empresa perceba?
Os casos mapeados vieram de histórico de commits do Git, datasets públicos no Hugging Face, imagens Docker publicadas com credenciais embutidas e logs de CI acessíveis. Em muitos casos a chave nunca foi removida do histórico, mesmo depois de excluída do arquivo atual.
A AWS avisa quando detecta uma chave exposta?
Sim. A AWS aplica a política AWSCompromisedKeyQuarantine a chaves identificadas como públicas e notifica o titular da conta. A pesquisa mostra, porém, que parte dessas chaves continua ativa anos depois do aviso.
Um alerta de orçamento evita o prejuízo de uma chave vazada?
Não impede o vazamento, mas limita o estrago financeiro: cryptomining e uso indevido de recursos geram custo visível rapidamente, e um alerta de poucos dólares já é suficiente para sinalizar atividade fora do padrão antes de a fatura chegar alta.
Rotacionar a chave depois de um tempo já resolve o risco?
Reduz, mas não elimina: se a chave antiga já foi replicada em datasets ou imagens de terceiros, ela permanece exposta onde quer que tenha sido copiada. A rotação evita novos vazamentos a partir da chave atual, não remove cópias já distribuídas.
Conclusão
O levantamento da Truffle Security expõe um padrão recorrente em ambientes de nuvem: a chave vazada raramente é recente — o problema já existe há anos e segue sem tratamento porque ninguém revisita credenciais antigas. Para times de infraestrutura, o achado é um lembrete direto: auditar chaves root e IAM, configurar alertas de orçamento e assumir que toda credencial já commitada em algum momento deve ser tratada como pública, independentemente de quando isso aconteceu.