Creeper e Reaper: o primeiro vírus e o primeiro antivírus
Em 1971, o programador Bob Thomas, da BBN Technologies, escreveu um programa experimental para rodar na ARPANET, a rede que décadas depois viraria a internet. O programa se chamava Creeper, saltava de um computador PDP-10 para outro rodando o sistema TENEX e, ao chegar, exibia uma única mensagem no teletipo: “I’M THE CREEPER: CATCH ME IF YOU CAN”. Não corrompia arquivo nenhum. Foi o primeiro programa autorreplicante da história — e, por extensão, é tratado até hoje como o primeiro “vírus” de computador, ainda que o termo técnico correto seja outro.
Um teste, não um ataque
Creeper não tinha payload malicioso. Thomas queria responder a uma pergunta de engenharia: um programa consegue se mover sozinho por uma rede de computadores? Na versão original, ele nem chegava a se copiar — apenas migrava de uma máquina para a próxima, desaparecendo da anterior. O alcance era limitado pela própria infraestrutura da época: só havia 28 máquinas TENEX ligadas à ARPANET, então esse era o teto físico de contaminação possível. Os operadores dos computadores participavam do experimento por vontade própria, e Ray Tomlinson — o mesmo engenheiro que, no ano seguinte, escolheria o símbolo @ para separar usuário e servidor no e-mail — confirmou décadas depois, em entrevista, que o teste não teve efeito colateral nenhum.
Mover não é copiar
A distinção técnica importa. A maioria dos relatos populares atribui o Creeper inteiro a Bob Thomas, ponto final. Mas o próprio verbete da Wikipedia dedicado ao par Creeper/Reaper, citando uma entrevista de Tomlinson e registros do IEEE Annals of the History of Computing, atribui a Thomas apenas a versão original — que troca de lugar, não se multiplica. Foi Tomlinson quem reescreveu o programa para que ele se copiasse de máquina em máquina em vez de simplesmente pular entre elas, e é essa versão autorreplicante que a comunidade de segurança reconhece como o primeiro worm de computador propriamente dito. Sobre quem programou o Reaper — o software de 1972 que caçava e apagava o Creeper pela rede, geralmente citado como o primeiro antivírus da história — as fontes também não fecham questão: a Wikipedia credita a Tomlinson, mas registra que não há documentação definitiva, e outras fontes deixam a autoria em aberto.
Por que isso ainda importa
Todo SOC, todo SIEM, toda assinatura de antivírus que existe hoje descende, em linha reta de propósito, daquele duelo de 1972 entre um programa que se espalhava e outro que existia só para caçá-lo. A dupla também inspirou Core War, jogo de programação de 1984 em que programas competem para apagar uns aos outros na memória de um computador simulado — um gênero inteiro nascido de uma prova de conceito que não pretendia ferir ninguém.