Por que o símbolo @ foi escolhido para o e-mail
Ray Tomlinson escolheu o @ em 1971 por eliminação, não por inspiração. Ele precisava de um separador entre o nome do usuário e o nome da máquina, e a exigência era objetiva: o caractere não podia aparecer em nenhum nome de usuário, senão o endereço ficaria ambíguo. Olhando o teclado do Teletype Model 33 à sua frente, o @ era a única pontuação que ninguém usava para nada.
O problema que ele estava resolvendo
Tomlinson trabalhava na BBN, empresa contratada para construir a ARPANET. Correio eletrônico já existia, mas só dentro da mesma máquina: usuários de um mesmo mainframe deixavam mensagens em arquivos que os outros liam. O que não existia era mensagem entre computadores distintos.
Ao juntar o programa de mensagem local com um protocolo experimental de transferência de arquivos, ele criou o envio entre máquinas — e com isso um problema novo de endereçamento. Até então bastava dizer para quem. Agora era preciso dizer para quem e em qual host. O formato usuário@host resolvia isso em um caractere.
Havia um bônus semântico. Em inglês, o @ já se lia “at”. tomlinson@bbn-tenexa se lê literalmente como “Tomlinson na máquina bbn-tenexa”. O primeiro e-mail em rede saiu entre dois PDP-10 lado a lado na mesma sala, ligados pela ARPANET, no fim de 1971. Nem o próprio autor guardou o conteúdo da mensagem — segundo ele, era algo como uma sequência de teclas de teste.
De onde vinha o símbolo
O @ não foi inventado para a computação. Ele já circulava no comércio com o sentido de at the rate of, “à taxa de”: em uma fatura, “10 unidades @ US$ 3” significa dez unidades a três dólares cada. É por isso que o caractere estava no teclado das máquinas de escrever e, depois, nos terminais — ele fazia parte do vocabulário contábil.
A origem anterior é mais disputada. A hipótese mais citada é a do historiador italiano Giorgio Stabile, que em 2000 apontou uma carta de 1536 de um mercador florentino usando o símbolo para designar a ânfora, unidade de volume da época. A tese é plausível e nunca foi encerrada — outras leituras atribuem o traço a abreviações de escribas medievais.
Por que em português ele se chama arroba
Aqui a explicação é direta e nada tem a ver com internet. A arroba é uma unidade de peso antiga, herdada do árabe ar-rub (“a quarta parte”), equivalente a um quarto do quintal. Em Portugal e na Espanha valia cerca de 11,5 kg; no Brasil, firmou-se em 15 kg e continua em uso corrente na pecuária — o preço da arroba do boi gordo é cotado diariamente até hoje.
Como o símbolo @ era usado para abreviar essa unidade nos registros comerciais ibéricos, ele herdou o nome. Quando o e-mail chegou ao Brasil, o caractere já tinha nome em português, e ninguém precisou inventar outro.
Outros idiomas foram por caminhos mais pitorescos, quase todos zoológicos:
- Italiano: chiocciola, caracol.
- Dinamarquês e sueco: snabel-a, o “a com tromba”.
- Alemão: Klammeraffe, macaco-aranha.
- Russo: sobaka, cachorrinho.
- Finlandês: kissanhäntä, rabo de gato.
A decisão que sobreviveu a tudo
Cinquenta e poucos anos depois, o formato local-part@domínio continua sendo o mesmo, agora especificado na RFC 5322. Mudou o transporte, mudou a autenticação, mudou a escala — e a escolha feita em cima de um teclado de teletipo permaneceu, porque resolvia o problema com um caractere e nenhuma ambiguidade. É o tipo de decisão de projeto que envelhece bem justamente por não tentar fazer nada além do necessário.