Data centers pressionam a rede elétrica: US$ 550 bi em redes e uma fila de 7 GW no Brasil
O investimento global em redes elétricas deve chegar a US$ 550 bilhões em 2026, dentro de um total de US$ 3,4 trilhões aplicados em energia, segundo o World Energy Investment 2026 da Agência Internacional de Energia (IEA). É muito dinheiro e ainda assim descompassado do ritmo com que a carga de data centers cresce — e o Brasil já mede esse descompasso na fila de conexão do ONS.
A demanda está medida, não estimada
O relatório Key Questions on Energy and AI, publicado pela IEA em 2026, coloca o consumo mundial de eletricidade dos data centers em 485 TWh em 2025, alta de 17% em um ano. Os data centers voltados a IA cresceram 50% no mesmo período. A projeção central para 2030 é de aproximadamente 950 TWh, perto do consumo elétrico anual do Japão inteiro.
O gargalo, porém, não é geração — é conexão. Na edição anterior do estudo, Energy and AI, a IEA estimou que cerca de 20% dos projetos de data center planejados no mundo correm risco de atraso por limitação de conexão à rede. Capacidade contratada no papel não vira rack energizado sem subestação e linha de transmissão prontas.
Densidade por rack: o número que reescreve o projeto
Para quem dimensiona sala, o dado mais direto da IEA é a densidade. A potência por rack cresceu 11 vezes entre 2020 e 2025, com projeção de mais 4 vezes até 2027 — chegando a racks de pico cujo consumo equivale ao de 65 residências.
Isso muda premissa de projeto em três frentes. Distribuição elétrica: barramento, PDU e disjuntor dimensionados para 5 kW por rack não atendem 30 kW. Autonomia de nobreak: mais kW no mesmo espaço significa menos minutos com o mesmo banco de baterias, e o cálculo precisa ser refeito com a carga real, não com a de placa. Refrigeração: ar forçado deixa de fechar a conta bem antes do limite teórico, empurrando o ambiente para líquido. A IEA também projeta de 20 a 25 GW de armazenamento em baterias instalados em data centers até 2030, sinal de que o setor passou a tratar energia como sistema, não como acessório.
No Brasil, a fila do ONS já é o indicador
O Operador Nacional do Sistema formalizou 43 pedidos de acesso à Rede Básica, dos quais 38 são data centers, somando cerca de 7.040 MW de demanda. São Paulo concentra 20 desses pedidos, com carga estimada de 3.914 MW. Os cinco pedidos restantes — hidrogênio verde, indústria e mineração — somam 258,6 MW. A diferença de escala dispensa comentário.
A curva é recente e íngreme: em 2019 houve dois pedidos; em 2020, nenhum. A capacidade instalada brasileira deve sair de 826 MW em 2025 para 1.746 MW ao fim de 2026, primeiro mercado da América Latina a passar de 1 GW, com o país respondendo por cerca de 48% da capacidade operacional da região e 71% do que está em construção. Em apresentação do ONS, pedidos individuais chegam a 300 MW por conexão.
O que auditar agora
- Autonomia real do nobreak sob a densidade atual, recalculada com a carga que está no rack hoje e com a que entra no próximo ciclo — não com a nameplate.
- Prazo de obra de transmissão contra prazo do projeto. Já há casos em São Paulo em que o data center fica pronto antes do reforço de rede que vai alimentá-lo.
- Capacidade térmica por corredor, medida. Delta-T e vazão dizem mais sobre o limite da sala que a especificação do CRAC.
- Ponto de conexão e contrato de energia. Cargas acima de algumas dezenas de MW deslocam a conversa da distribuidora para a Rede Básica, com fila, estudo e prazo próprios.
O risco operacional relevante não é apagão nacional. É o intervalo entre a velocidade com que se contrata carga de IA e a velocidade com que rede, sala e proteção elétrica conseguem acompanhar.